após
O cansaço fora a sensação que detestara. E depois, a melhor. Quando passou, a claridade magoava menos os olhos. Nem com tantas nuvens, até.
O cansaço fora a sensação que detestara. E depois, a melhor. Quando passou, a claridade magoava menos os olhos. Nem com tantas nuvens, até.
É uma bela idade para se ter, convenço-me. Mas não a afronto, ou irei observar as mãos a definharem e os cabelos a perderem a cor. Entrei na água, hesitando. Estava igual. A voz não falhava. E de frente para o espelho, o reflexo não mostrava alterações. Com brilho nos olhos, afinal também não é hoje, tampouco com esta idade, que vivo um primeiro dia. Talvez já a tenha tido há muito tempo. Quem sabe se só a terei daqui por anos incontáveis. Aniversários são um horror onde palhaços de gargalhadas estridentes me obrigam a reconhecer o que faço por não encarar nos restantes dias: O tempo. Temo-o tanto quanto posso, e estaria encolhida debaixo dos lençóis, não fosse ter descoberto que o circo limita-se à minha consciência como espectadora. E não tenho para quem fugir, receio que mesmo que as pernas se movam, o rosto não se vire, continuando a olhar o que o consome, o que o engelha. O que me distingue, é que o branco também me é uma cor. Para só ser admirada de longe.
Muitos parabéns e muitas palmas.
Noto todos os pequenos detalhes, o que não significa que os use imediatamente. Guardo-os até me serem úteis. E não necessariamente, que os utilize apenas para agradar. Os detalhes que reparo, aqueles que faço para não esquecer. Em pequenos papelinhos transparentes, à nossa volta. O que quiser com eles. Posso tornar claro ou, pelo contrário, escurecer-te as ideias. E deste modo, debaixo do meu controlo, tudo fica intolerável. Demasiado frio ou demasiado quente. Muito salgado ou insonso. Intolerável, tal como gostas.
Tudo estava dourado. Os cabelos castanhos, vimo-los dourados. Uma só aura à nossa volta. E só por ela, não me afligi com os raios de luz que queimavam. Tudo, dourado. Por entre as filas de trigo ou por entre o sol, não sei. E demorou um piscar de olhos. Um sonho do qual mal acordei, a lembrança do que me ardia no rosto. O sol estraga e envelhece, tal como fazes. E eu caminho sob ele.
Um pouco por todo o lado, devo dizer, que não vejas mais ninguém. E não vais saber escutar o som dos teus passos na calçada, lentos e curtos, enquanto caminhas sob o sol. O calor na pele e a tua respiração, cansada consigo adivinhar, reduzido à beleza da música que produzes, amaldiçoado por não a conseguires apreciar. E então, os teus ouvidos estarão aptos a tudo. Menos a ti. O roçar do pulso na porta, o baque frio e melodioso dos óculos contra o chão. O vento a passar entre os teus braços, sem que o possas impedir, sem que o queiras impedir. De braços abertos para que te leve com ele. Até a camisa a escorregar na cadeira. Dias insuportavelmente barulhentos, noites absurdamente silenciosas. Tudo feio, o que é teu. Pois quando eu chegar, serás capaz de ouvir e perceber. A beleza do roçar do meu pulso na porta. Mas estarás tão habituado que não vais querer ouvir nada. Quando eu voltar, acharás o meu silêncio o mais bonito de todos.
tenho pedras nos sapatos, sempre. não as tiro. espero que deixem de se fazer sentir, como extensões dos meus pés.
Como estava o céu quando olhei, flamejante quando vi. Mais do que cores com certeza, e as várias me doíam. O que representava ele sem piedade, essa que não me atrevi a pedir. Ao invés, de pé observei o que me ousava mostrar, através de uma janela meio fechada ou meio aberta. Não era beleza, apenas. Meio aberta quis que estivesse, para pensar que meios-termos são mais plausíveis do que julgo, reconhecendo que se estivesse aberta o vento levaria o pó que restava no parapeito, e fechada reflectiria demasiado, não me permitindo estudar o que queria. E estive lá, onde se tocavam, durante o tempo que não contei. Assim que o preto acabava, gelava o azul. Vermelho ardente e branco de rendição. E já não sei onde estou.
Abri a porta do quarto. Tirei as sandálias e caminhei sobre o chão. Para minha surpresa , não estava frio, o calor insuportável do dia tinha-o deixado aquecido. Natural. Para mim. Porém, a noite estava. Conseguia sentir a brisa calma e silenciosa. Mal me levantava os cabelos soltos, mas chegava para me provocar arrepios e parecia abraçar-me. Noites assim, são as que mais aprecio. São insanas e inseguras mas impedem-me de pensar e preenchem o espaço vazio que te pertence. Noites assim, são as que me fazem sorrir. Durante os poucos segundos que precedem o tremer do meu corpo, noto que não tens o mundo a teus pés. Nem que me constipe.