Segunda-feira, 06.09.10

após

O cansaço fora a sensação que detestara. E depois, a melhor. Quando passou, a claridade magoava menos os olhos. Nem com tantas nuvens, até.

Beatriz Jacob às 01:56 | comentar
Sábado, 04.09.10

parabéns pela bela idade, agora adormeço

É uma bela idade para se ter, convenço-me. Mas não a afronto, ou irei observar as mãos a definharem e os cabelos a perderem a cor. Entrei na água, hesitando. Estava igual. A voz não falhava. E de frente para o espelho, o reflexo não mostrava alterações. Com brilho nos olhos, afinal também não é hoje, tampouco com esta idade, que vivo um primeiro dia. Talvez já a tenha tido há muito tempo. Quem sabe se só a terei daqui por anos incontáveis. Aniversários são um horror onde palhaços de gargalhadas estridentes me obrigam a reconhecer o que faço por não encarar nos restantes dias: O tempo. Temo-o tanto quanto posso, e estaria encolhida debaixo dos lençóis, não fosse ter descoberto que o circo limita-se à minha consciência como espectadora. E não tenho para quem fugir, receio que mesmo que as pernas se movam, o rosto não se vire, continuando a olhar o que o consome, o que o engelha. O que me distingue, é que o branco também me é uma cor. Para só ser admirada de longe.

Muitos parabéns e muitas palmas.

Beatriz Jacob às 00:23 | comentar | ver comentários (39)
Sexta-feira, 03.09.10

que maldade!

"Aproveita o teu último dia com treze anos."

Beatriz Jacob às 16:34 | comentar | ver comentários (10)
Quarta-feira, 01.09.10

intolerável

Noto todos os pequenos detalhes, o que não significa que os use imediatamente. Guardo-os até me serem úteis. E não necessariamente, que os utilize apenas para agradar. Os detalhes que reparo, aqueles que faço para não esquecer. Em pequenos papelinhos transparentes, à nossa volta. O que quiser com eles. Posso tornar claro ou, pelo contrário, escurecer-te as ideias. E deste modo, debaixo do meu controlo, tudo fica intolerável. Demasiado frio ou demasiado quente. Muito salgado ou insonso. Intolerável, tal como gostas.

Beatriz Jacob às 13:11 | comentar | ver comentários (35)
Terça-feira, 31.08.10

uma outra educação

The life I want, there is no shortcut.

Beatriz Jacob às 23:07 | comentar | ver comentários (26)
Segunda-feira, 30.08.10

como ouro

Tudo estava dourado. Os cabelos castanhos, vimo-los dourados. Uma só aura à nossa volta. E só por ela, não me afligi com os raios de luz que queimavam. Tudo, dourado. Por entre as filas de trigo ou por entre o sol, não sei. E demorou um piscar de olhos. Um sonho do qual mal acordei, a lembrança do que me ardia no rosto. O sol estraga e envelhece, tal como fazes. E eu caminho sob ele.

Beatriz Jacob às 23:18 | comentar | ver comentários (28)
Domingo, 29.08.10

braços abertos

Um pouco por todo o lado, devo dizer, que não vejas mais ninguém. E não vais saber escutar o som dos teus passos na calçada, lentos e curtos, enquanto caminhas sob o sol. O calor na pele e a tua respiração, cansada consigo adivinhar, reduzido à beleza da música que produzes, amaldiçoado por não a conseguires apreciar. E então, os teus ouvidos estarão aptos a tudo. Menos a ti. O roçar do pulso na porta, o baque frio e melodioso dos óculos contra o chão. O vento a passar entre os teus braços, sem que o possas impedir, sem que o queiras impedir. De braços abertos para que te leve com ele. Até a camisa a escorregar na cadeira. Dias insuportavelmente barulhentos, noites absurdamente silenciosas. Tudo feio, o que é teu. Pois quando eu chegar, serás capaz de ouvir e perceber. A beleza do roçar do meu pulso na porta. Mas estarás tão habituado que não vais querer ouvir nada. Quando eu voltar, acharás o meu silêncio o mais bonito de todos.

Beatriz Jacob às 23:52 | comentar | ver comentários (38)
Sábado, 28.08.10

nem que dance

tenho pedras nos sapatos, sempre. não as tiro. espero que deixem de se fazer sentir, como extensões dos meus pés.

Beatriz Jacob às 14:58 | comentar | ver comentários (31)
Sexta-feira, 27.08.10

em que cor

Como estava o céu quando olhei, flamejante quando vi. Mais do que cores com certeza, e as várias me doíam. O que representava ele sem piedade, essa que não me atrevi a pedir. Ao invés, de pé observei o que me ousava mostrar, através de uma janela meio fechada ou meio aberta.  Não era beleza, apenas. Meio aberta quis que estivesse, para pensar que meios-termos são mais plausíveis do que julgo, reconhecendo que se estivesse aberta o vento levaria o pó que restava no parapeito, e fechada reflectiria demasiado, não me permitindo estudar o que queria. E estive lá, onde se tocavam, durante o tempo que não contei. Assim que o preto acabava, gelava o azul. Vermelho ardente e branco de rendição. E já não sei onde estou.

Beatriz Jacob às 20:13 | comentar | ver comentários (38)
Quinta-feira, 26.08.10

na noite

Abri a porta do quarto. Tirei as sandálias e caminhei sobre o chão. Para minha surpresa , não estava frio, o calor insuportável do dia tinha-o deixado aquecido. Natural. Para mim. Porém, a noite estava. Conseguia sentir a brisa calma e silenciosa. Mal me levantava os cabelos soltos, mas chegava para me provocar arrepios e parecia abraçar-me. Noites assim, são as que mais aprecio. São insanas e inseguras mas impedem-me de pensar e preenchem o espaço vazio que te pertence. Noites assim, são as que me fazem sorrir. Durante os poucos segundos que precedem o tremer do meu corpo, noto que não tens o mundo a teus pés. Nem que me constipe.

Beatriz Jacob às 02:40 | comentar | ver comentários (27)